“Faz sinal para aquele táxi. Corre! Não deu tempo, tudo bem. Vem outro logo atrás…”  Nos esgueiramos pra dentro do táxi. “Olá, Sr., boa tarde. Pode nos levar ao Castelo de São Jorge, por favor?” Um simpático senhor rechonchudinho, com a cara rosada e um bigode (clichê), nos saudou de volta e aceitou a corrida. Assim começou a nossa jornada despretensiosa naquela tarde em Lisboa. Tínhamos acabado de passar uma manhã incrível em Belém. E, sim, após um farto almoço com direito a bacalhau e muitos pastéis de nata depois, estávamos abarrotados. O táxi vinha a calhar, pra descansar um pouco das andanças, fazer a digestão e otimizar o tempo. Queríamos ir para o outro lado da cidade.

Eu, com minha mania de querer ser local e falante que sou, puxei assunto com o motorista: “Onde é que a gente acha uma Casa de Fado de verdade por aqui, hein? Não aquelas pra turista ver. Queremos saber onde os lisboetas vão quando querem ouvir fado.” Eu não tinha acreditado muito na indicação do recepcionista do balcão do hotel, mesmo… O que se seguiu foi a aventura mais autêntica que eu poderia jamais imaginar em Lisboa. Eis que o senhor me responde: “Ó, pá! Perguntaste à pessoa certa! Eu sou fadista. Tenho, inclusive, um CD à venda aqui no carro, espera só um momentinho… E ainda vou levá-los à melhor Casa de Fados de Lisboa. Fica bem próxima de onde eu moro, em um bairro vizinho ao Castelo.” Eu e o Wagner nos entreolhamos e tentamos não rir. Quem poderia acreditar naquela obra do acaso? Um taxista fadista.

Conversa vai, conversa vem, o motorista, de repente, percebeu que errou o caminho para o Castelo. Era na outra subida. Mas, não fazia mal, segundo ele. Estávamos próximos de um dos mirantes mais espetaculares de Lisboa, de onde era possível apreciar, não só o casario antigo das partes altas do Alfama e boa parte de Lisboa, até o Rio Tejo, como o próprio Castelo de São Jorge, nosso objetivo inicial de visitação naquela tarde. Que mal fazia dar uma paradinha?

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O motorista do táxi havia nos levado ao Bairro da Glória, e aquele era o Mirante da Glória. Ficamos estarrecidos com as mais belas vistas de Lisboa e o climão do local. Estava decidido. Iríamos seguir com o motorista até a Casa de Fados, que ele disse que era pertinho dali, depois voltaríamos pra aproveitar o pôr do sol por lá, já que os dias eram mais longos naquela época do ano e o sol demorava pra ir embora. Aquele lugar pedia calma.

Voltamos para o táxi e seguimos viagem. Em mais um minuto chegamos na Tasca do Jaime. Uma birosquinha, na verdade. Que me lembrou muito os botecos apertadinhos do Centro do meu Rio. Praticamente um corredor estreito, com um balcão do lado direito e umas poucas mesas do outro lado. Ao fundo, um microfone pendurado no teto, marcava o local onde aconteceria a cantoria. Lá, já começavam a se reunir alguns senhores e senhoras, locais certamente. Era uma casa portuguesa, com certeza. Chegamos muito cedo, a Tasca tinha acabado de abrir. As mesas ainda estavam vazias e logo nos dirigimos a uma delas. O motorista nos preveniu de que, para sentar ali, seria preciso consumir. Beleza. Pensamos em pedir um vinhozinho, talvez um bolinho de bacalhau. Nada mais justo. Aliás, ele próprio resolveu call it the day e largar o táxi e ficar por lá também. Ele, esperto, foi pro balcão.

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Esse era o nosso taxista fadista. :D

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A questão é que não bastava pedir um vinhozinho. A nossa taça tinha que sempre estar cheia. E não podia só beber, não. Tinha que pedir algo para acompanhar. E continuar consumindo, pra manter seu direito à mesa. A própria Dona Laura, esposa do Jaime (os donos da Tasca), se certificava disso. A ponto de praticamente colocar os bolinhos de bacalhau na nossa boca, com tanta gentileza e uma sutileza, digamos, peculiar. “Vá, coma mais um pouquinho, que estás muito magrinha”. Um doce, a D. Laura, muito simpática e receptiva, tratando a todos como filhos.

O clima na Tasca do Jaime era muito gostoso, acolhedor e familiar. Familiar mesmo. O próprio Jaime, dono da Tasca, cantava também. A esposa, D. Laura, servia as mesas com uma agilidade impressionante, um dos filhos do casal era um dos músicos e o outro filho era o chef.

Logo começou o fado. Um a um, os fadistas se alternavam em cantos dramáticos e cheios de nostalgia, que falavam de amores, dissabores ou o próprio cotidiano. Vou te contar uma coisa que talvez você já saiba. Pra começar a entender o fado, é preciso compreender o conceito de saudade. E isso é privilégio de quem fala Português. Essa língua tão rica, tão bela, que nos torna irmãos dos patrícios. Ficamos encantados e estupefatos por estarmos vivendo aquele momento. Éramos os únicos turistas naquele local e eu tinha quase certeza de que eu era a primeira brasileira a pisar lá. Assim como Portugal descobriu o Brasil, eu sentia, naquele momento, que dois brasileiros descobriam Portugal.

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A platéia, entorpecida, atenta, em reverência, não poderia dar um pio, durante as performances. Esse é o protocolo. Afinal, vai-se lá para ouvir fado, ó pá. A solenidade poderia ser quebrada apenas e tão somente pela D. Laura, que vez por outra, dava um berro pra chamar atenção de algum cliente animadinho que deixasse escapar um cochicho mais alto durante as apresentações: “Silêncio!”, bradava ela, exigindo respeito ao fadista. (Nessas ocasiões eu que, naturalmente, estava concentrada no fado e não tinha ouvido nenhuma conversinha, dava um pulo da cadeira, de susto, diga-se de passagem). Falar e rir, só nos intervalos. Aí, sim, e não faltava animação. Afinal, fado é assunto sério, quase sagrado e com isso não se brinca. Mesmo em se tratando do “Fado Vadio”, modalidade de fado que é a especialidade da casa. Vadio sim, mas não menos merecedor de respeito, ora pois.

Alguns fadistas eram muito, muito bons, especialmente uma senhora, que parecia cantar a alma, com todos os seus “ais”. Uma diva. Outros, nem tão bons. Em tese, qualquer um poderia se aventurar e ir lá fadear. Mas, a coisa era viva, real, autêntica, pulsante. E isso que importava. E foi ficando melhor. Ou era isso, ou era todo aquele vinho que a Dona Laura nos empurrava oferecia. Não sei.

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A senhora diva fadista. Minha predileta. Dona Dulce, se não me falha a memória.

Os bolinhos de bacalhau eram muito gostosos e o vinho da casa era delicioso, justiça seja feita. Wagner chegou a degustar o arroz doce da casa. Divino, segundo ele. Eu não consegui nem provar, uma pena. ‘Por motivos de” ainda estar me recuperando da farra gastronômica que tínhamos feito em Belém mais cedo. Sem brincadeira, a gente já tinha chegado lá de barriga cheia. E chegou um ponto em que comecei a guardar os bolinhos de bacalhau na bolsa, escondida da D. Laura, para poder continuar sentada na mesa. Eu queria continuar lá ouvindo o fado, ora, não me julguem. Estava tão bom… Rsrs! Uma comédia! Recomendo, fortemente, que você vá à Tasca do Jaime, pelo menos uma vez na sua vida. Mas, vá com fome. E com paciência para relevar essas pequenas questões culturais. Na verdade, para nós, elas renderam boas risadas e excelentes estórias.

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Wagner fazendo cara de crítico de Master Chef, com uma bela colherada do arroz doce.

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Vá preparado também para dividir sua mesa com estranhos. Eles acabam até se tornando parceiros de taça e, no fim, você já vai estar compartilhando estórias e uma garrafa de vinho com eles. Um dos senhores que se sentou ao meu lado parecia ser amicíssimo da D. Laura. Posso até me lembrar da cena, em que ele animadamente se dirige à ela e diz: “Amo-te tanto, que quase lhe beijo!”, agarrando o braço da anfitriã, num rompante de carinho. Sim, D. Laura é a alma daquele lugar. Uma personagem querida por todos.

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Aqui a D. Laura e o Sr. afetuoso, meu vizinho na mesa.

Em seguida, o mesmo Sr. se voltou rapidamente para nós, e foi fazer um elogio respeitoso ao meu marido, sobre sua senhora (no caso, eu). E derrubou uma taça de vinho tinto por cima do meu blazer de linho tão lindo… Ai. Perda total, mesmo. Mas, nem isso tirou o nosso humor. Ainda rio tanto quanto eu ri na hora, só de lembrar da cena!

Num dado momento, finalmente, foi a vez do nosso taxista fadista se aventurar nas canções. Ele era bom mesmo, o que me fez suspirar aliviada, por não ter gasto mal meus 10 euros naquele CD que ele tinha me vendido, e eu, sem graça, tinha comprado mais cedo. Pagamos umas taças para o taxista, em agradecimento por ter nos levado para esse reduto boêmio local, essa pérola de Lisboa. Nessa hora, a Tasca já fervia, tinha gente saindo pelo ladrão. E muito bigodudo de olho na nossa mesa. Nós, então, gentilmente, cedemos o nosso lugar. Na verdade, preciso confessar: não tinha mais espaço na minha bolsa pra mais nenhum bolinho de bacalhau. E eu fiquei por dias sem poder sequer olhar para essa iguaria.

Saímos bêbados de tanta cultura. Mentira. Não só de cultura, mas literalmente bêbados. Foi o maior porre que já tomamos na vida! Rsrs! Saímos da Tasca do Jaime cambaleantes e risonhos, achando graça de tudo. Achando graça daquele bairro da Graça e da vida.

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Fomos lá, então, perseguir a luz dourada sobre a Lisboa poente e aplaudir o mais fantástico pôr do sol que já vimos na vida, como tínhamos prometido um ao outro. Mas, isso é conversa pra outro post. E o Castelo de São Jorge, que nos fez pegar aquele táxi lá no começo da estória, afinal? Esse vai ficar para uma próxima ida à Lisboa…

Você já foi a alguma Casa de Fado em Lisboa? Como foi sua experiência? Tem alguma história engraçada de viagens a Portugal pra me contar? Se você gostou, comenta, sim? E compartilha com os amigos viajantes! <3

Tasca do Jaime
Endereço: Rua da Graça 91, Lisboa
Telefone: +351 21 8881560 (chegue cedo ou faça reserva – a casa é minúscula e tem pouquíssimas mesas)
Dicas: Fados aos sábados domingos e feriados, das 16:00 às 20:00. Mas, é a partir das 17:30h que a Tasca fica mais animada. Vá com fome. Bolinhos de bacalhau divinos a 1,5o euros cada.
Como chegar: Nós fomos de táxi, mas você pode pegar o elétrico (bondinho) 28 e saltar bem em frente.

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